quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Músicas "narrativas" ! ! !

As únicas palavras a dizer sobre essa música (e, claro, letra) estão na obra de Guimarães Rosa. Fico, quando escuto essa canção, apenas com o sentimento... coração.





Matita Perê
Tom Jobim

No jardim das rosas 
De sonho e medo 
Pelos canteiros de espinhos e flores 
Lá, quero ver você 
Olerê, Olará, você me pegar

Madrugada fria de estranho sonho 
Acordou João, cachorro latia 
João abriu a porta 
O sonho existia

Que João fugisse 
Que João partisse 
Que João sumisse do mundo 
De nem Deus achar, Ierê

Manhã noiteira de força viagem 
Leva em dianteira um dia de vantagem 
Folha de palmeira apaga a passagem 
O chão, na palma da mão, o chão, o chão

E manhã redonda de pedras altas 
Cruzou fronteira de servidão 
Olerê, quero ver 
Olerê

E por maus caminhos de toda sorte 
Buscando a vida, encontrando a morte 
Pela meia rosa do quadrante Norte 
João, João

Um tal de Chico chamado Antônio 
Num cavalo baio que era um burro velho 
Que na barra fria já cruzado o rio 
Lá vinha Matias cujo o nome é Pedro 
Aliás Horácio, vulgo Simão 
Lá um chamado Tião 
Chamado João

Recebendo aviso entortou caminho 
De Nor-Nordeste pra Norte-Norte 
Na meia vida de adiadas mortes 
Um estranho chamado João

No clarão das águas 
No deserto negro 
A perder mais nada 
Corajoso medo 
Lá quero ver você

Por sete caminhos de setenta sortes 
Setecentas vidas e sete mil mortes 
Esse um, João, João 
E deu dia claro 
E deu noite escura 
E deu meia-noite no coração 
Olerê, quero ver 
Olerê

Passa sete serras 
Passa cana brava 
No brejo das almas 
Tudo terminava 
No caminho velho onde a lama trava 
Lá no todo-fim-é-bom 
Se acabou João

No Jardim das rosas 
De sonho e medo 
No clarão das águas 
No deserto negro 
Lá, quero ver você 
Lerê, lará 
Você me pegar

Álbum Matitaperê (1973)


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Orgulho ou vaidade?


A diferença entre a vaidade e o orgulho consiste em que este é uma convicção bem firme de nossa superioridade em todas as coisas; a vaidade, pelo contrário, é o desejo que temos de despertar nos outros esta persuasão, com a esperança secreta de chegar por fim a convencer a nós mesmos.

O orgulho tem, pois, origem numa convicção interior e, portanto, direta; a vaidade é a tendência de adquirir a auto-estima do exterior e, portanto, indiretamente. A vaidade é faladora, o orgulho silencioso. Mas o homem vaidoso deveria saber que a alta pinião dos outros, alvo de seus esforços, obtém-se mais facilmente por um silêncio contínuo do que pela palavra, mesmo quando não há para dizer as coisas mais lindas. Não é orgulhoso quem quer; pode-se, no máximo, simular o orgulho, mas, como todo papel de convenção, não logrará ser sustentado até o fim. Porque é apenas a convicção profunda, firme, inabalável que se tem de possuir méritos superiores e valor excepcional que dá o verdadeiro orgulho. Esta convicção pode até ser errônea, ou fundada apenas em vantagens exteriores e de convenção, mas, se é real e sincera, em nada prejudica o orgulho. Pois o orgulho tem raízes na nossa convicção e não depende, assim como sucede com qualquer outro conhecimento, do nosso bel-prazer. O seu pior inimigo, quero dizer, o seu maior obstáculo, é a vaidade, que apenas leva o indivíduo a solicitar os aplausos alheios para, em seguida, formar uma opinião elevada de si mesmo; ao passo que o orgulho supõe uma opinião já firmemente arraigada em nós. Há quem censure e critique  o orgulho; esses, sem dúvida, nada possuem de que se orgulhar.

(A. Schopenhauer. Dores do Mundo).


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Afinidade


AFINIDADE

A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil,
delicado e penetrante dos sentimentos.
E o mais independente.
Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos,
as distâncias, as impossibilidades.
Quando há afinidade, qualquer reencontro
retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto
no exato ponto em que foi interrompido.

Afinidade é não haver tempo mediando a vida.
É uma vitória do adivinhado sobre o real.
Do subjetivo para o objetivo.
Do permanente sobre o passageiro.
Do básico sobre o superficial.

Ter afinidade é muito raro.
Mas quando existe não precisa de códigos
verbais para se manifestar.
Existia antes do conhecimento,
irradia durante e permanece depois que
as pessoas deixaram de estar juntas.
O que você tem dificuldade de expressar
a um não afim, sai simples e claro diante
de alguém com quem você tem afinidade.

Afinidade é ficar longe pensando parecido a
respeito dos mesmos fatos que impressionam comovem ou mobilizam.
É ficar conversando sem trocar palavras.
É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento...

Afinidade é sentir com. Nem sentir contra,
nem sentir para, nem sentir por.
Quanta gente ama loucamente,
mas sente contra o ser amado.
Quantos amam e sentem para o ser amado,
não para eles próprios.

Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo.
É olhar e perceber.
É mais calar do que falar, ou, quando falar,
jamais explicar: apenas afirmar.

Afinidade é jamais sentir por.
Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo.
Mas quem sente com, avalia sem se contaminar.
Compreende sem ocupar o lugar do outro.
Aceita para poder questionar.
Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar.

Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças.
É conversar no silêncio, tanto das possibilidades exercidas,
quanto das impossibilidades vividas.

Afinidade é retomar a relação no ponto em que
parou sem lamentar o tempo de separação.
Porque tempo e separação nunca existiram.
Foram apenas oportunidades dadas (tiradas) pela vida,
para que a maturação comum pudesse se dar.
E para que cada pessoa pudesse e possa ser,
cada vez mais a expressão do outro sob a
forma ampliada do eu individual aprimorado.

Artur da Távola