sábado, 26 de novembro de 2011

Poemas Pueris II

Juraci Dórea (Foto: Danilo Cerqueira)


Custo a visitar os mastros esferográficos
Desenhando o estandarte da esperança.
Sucinta a ação, a intenção das palavras
Prestes a pular da minha cara
Orbitam meu sistema ocular
Cuja estrela solitária surpreende pela imponência
Completamente simples, tenra, cativante
Um dia faísca inicial do surgimento do princípio
Primeira vida num deserto de visões.

Meço a lisura dos versos
Verdadeiros, imperfeitos, insatisfeitos, espontâneos
Soltos em cautela na superfície
Um castelo vernáculo a cair-se
Ondas de emoções.

Na volta à origem, acompanho-as.
Praia branca, lisa... difícil visita
Custosa saída.
A mente se põe a autenticar o documento
Materializar de sentimento
A escoar pelo papel, esculpir na alma
Arte calma pela minha lembrança.

9 e 11/02/2005

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Poemas Pueris I

Foto: DaniloCerqueira


A aurora de um poema

As páginas reclamam da mancha
Mas sonham com próximos textos.
Com lágrimas que combinam com tinta
Cunhada em plenas pautas.

A folha é o céu, as pautas, estrelas.
Resta-lhe evocar emoção, 
escrever sem essa algema humana:
a razão...
E figurar imaginariamente o ego.

Uma obrigação esta de escrever.
Consumo imponderante e óbvio.
São estames que dançam a valer
em ziguezague eufórico e esferográfico.
Arte irreal de conceber.
Férteis, folha, pautas, caneta...
Flor, céu e estrela.

Danilo Cerqueira
26/06/2002

domingo, 20 de novembro de 2011

As letras das músicas em diálogo com o conhecimento sobre a vida XVII

War Child

 

Who will save the war child baby
Who controls the key?
The web we weave is thick and sorbid
Fine by me
At times of war we're all losers
There's no victory
We shoot and kill and kill your lover
Fine by me
War child, victim of political pride
Plant the seed, territorial greed
Mind the warchild, we should mind the warchild
I spent last winter in New York and came upon a man
He was sleeping on the streets and homeless
He said "I fought in Vietnam"
Beneath his shirt he wore his mark, he bore the mark of pride
A two inch deep incision, carved into his side
War child, victim of political pride

Plant the seed, territorial greed

Uma tradução abaixo 

"Filho Da Guerra"

Quem salvará o filho da guerra, querido?
Quem controla a chave?
A teia que nós tecemos é espessa e miserável
Por mim, tudo bem
Em tempos de guerra, somos todos perdedores
Não há vitória
Nós vamos atirar para matar e matar o seu amor
Por mim, tudo bem

Filho da Guerra, vítima do orgulho político
Plante a semente, cobiça territorial
Pense no filho da guerra
Quem deveria se importar com o filho da guerra?

Eu passei o último inverno em Nova York
E encontrei-me com um homem
Ele estava dormindo nas ruas, e desabrigado
Ele disse "Eu lutei no Vietnã"
Debaixo da sua camisa ele usava a marca e a mostra com orgulho
Uma incisão de duas polegadas de profundidade talhada do lado

Quem é o perdedor agora?
Quem é o perdedor agora?
Nós todos somos perdedores agora
Nós todos somos perdedores agora


Álbum no qual a música está
To the Faithful Departed (1996)

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

É preciso escrever

Foto: Danilo Cerqueira

É preciso escrever sobre a terra.

Talvez não seja necessário falar. As pessoas andam muito surdas, ávidas por escutar a própria voz.

Nunca necessitaremos do ouvido de um mudo? Quando tentaremos escutar os outros para aprender a melhor encontrar nossos caminhos. Há de se estar perdido entre as próprias duas linhas de texto, escancarado para dentro das mais estranhas palavras, dos mais caudalosos pensamentos, da mais assustadora iminência de ação, para comungar mais habilmente da profunda incerteza que nos move a vida. 

Certa vez, disse-lhe um tolo: "perder-te-ás a liberdade para um miserável que não tem o que comer, não tem para onde ir e não sabe porque está vivo." Se acreditou nas palavras que disse ao espelho, isso não elevou sua ambição, temor ou afinco para resolver as questões mais urgentes. Pode-se não acreditar no que se diz ao espelho, mas

"Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas"... E no meio do espelho tinha uma imagem...

Se continuará (ou continuar-se-á) a deixar os escritos de vidas tão sem serviço ao que os deixa sem chão. Pode-se encontrar alento no que não nos deixa retribuir? Como podemos suscitar amizade ao que não se furta a deixar a solidão sozinha, sem presença de razão, para que, com ela, cheguemos à colaboração. Ou seja: como posso comentar contigo pela madrugada se você não pode escutar ao menos as simples gotas que teimam em cair e atingir um fundo que imerge do chão.

Tantos nomes me vêm à cabeça. Como são novas as sensações de saber isso, saber aquilo, estar consciente, asseverar-se de não estar inconsciente... Consome-se muito ao cercar a própria vida de certezas que se vão tanto numa baforada de cigarro quanto no aroma de um caro perfume francês.

  
Danilo Cerqueira