terça-feira, 21 de junho de 2011

Escrever

Escrever é como o rio.
Escrever é como o mar.
Escrever é como o estar.
Escrever é como estourar.
Escrever com o paladar.
Escrever é comungar.
Escrever é contiguar.
Escrever... certo intercalar.
Escrever é imergir.
Escrever é incumbir.
Escrever é posterizar.
Escrever é pechinchar ao intelecto.
Escrever é gotejar.
Escrever é decantar.
Escrever é pormenorizar.
Escrever é fundir.
Escrever é inquirir.
Escrever é garantir.
Escrever não muda.
Escrever é uma lupa.
Escrever é a muda.
Escrever hoje encurta.
Escrever ontem ofusca.
Escrever agora é ponto e verso.
Escrever é somente o rastro.
E o posposto tão somente nexo
Entre sentir e esse óbolo do universo!

Texto e foto: Danilo Cerqueira

sábado, 11 de junho de 2011

"O que em mim fica, o que em mim significa?"





" – Deus! crer em Deus!?... sim! Como o grito íntimo o revela nas horas frias do medo, nas horas em que se tirita de susto e que a morte parece roçar úmida por nós! Na jangada do naufrágio, no cadafalso, no deserto, sempre banhado de suor frio do terror e que vem a crença em Deus! Crer nele como a utopia do bem absoluto, o sol da luz e do amor, muito bem! Mas, se entendeis por ele os ídolos que os homens ergueram banhados de sangue e o fanatismo beija em sua inanição de mármore de há cinco mil anos... não creio nele!”
p.13



Álvares de Azevedo. Noite na Taverna. Ed. Avenida. Jaraguá do Sul, SC, 2005.





"O poema então começa pelos últimos crepúsculos do misticismo, brilhando sobre a vida como a tarde sobre a terra. A poesia puríssima banha com seu reflexo ideal a beleza sensível e nua.
O poeta acorda na terra. Demais, o poeta é homem: Homo sum, como dizia o célebre Romano. Vê, ouve, sente e, o que é mais, sonha de noite as belas visões palpáveis de acordado. Tem nervos, tem fibra e tem artérias - isto é, antes e depois de ser um ente idealista, é um ente que tem corpo. E, digam o que quiserem, sem esses elementos, que sou o primeiro a reconhecer muito prosaicos, não há poesia.
O que acontece? Na exaustão causada pelo sentimentalismo, a alma ainda trêmula e ressoante da febre do sangue, a alma que ama e canta, porque sua vida é amor e canto, o que pode senão fazer o poema dos amores da vida real? Poema talvez novo, mas que encerra em si muita verdade e muita natureza, e que sem ser obsceno pode ser erótico, sem ser monótono. Digam e creiam o que quiserem: - todo o vaporoso da visão abstrata não interessa tanto como a realidade formosa da bela mulher a quem amamos."
p.43

Álvares de Azevedo. Lira dos vinte anos. Ed. Ciranda Cultural, 2007.

domingo, 5 de junho de 2011

Hora


Pisa não está certa em lavrar
as candeias no corpo lunar.


Sabe-se que novos tombos
corroem as agruras do nobre terraço.
Bacanos, os dias se seguem em dobra de porta;
o viço da boca senhora.
Fala-se de ordenhas maviosas...
Noites que teimam a enervar!


Pus a cuia no sereno... Céu cortado à voz.


Antimormaço e o cego de nascença agasta a coruja:
- Escuta, burra de fala! Cada eu te abraça.
Alegria da caça e tu pende na rua?!


Danilo Cerqueira




Foto: Danilo Cerqueira

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Aquela poesia na música

Abaixo estão algumas frases de uma das músicas mais poéticas que conheço. Há um diálogo de imagens que vai muito além do tema melodramático que poderia ser atribuído a essa música. São tantas (e reunidas, articuladas) imagens que dá pra passar muito tempo imaginando o que será que o cara quis dizer (se é que é necessário) com isso(s). Vê-lo e ouvi-lo cantar (o compositor e o intérprete são os mesmos no vídeo abaixo) é um alento e muito instigador.


"O clipe de King of pain (o rei da dor)"









There's a little black spot on the sun today

Há um pontinho preto no sol hoje
(That's my soul up there)
(É minha alma que está lá)


It's the same old thing as yesterday
É a mesma coisa antiga de ontem

(That's my soul up there)

(É minha alma que está lá)

There's a black hat caught in a high tree top

Há um chapéu preto preso no topo de uma árvore alta
(That's my soul up there)
(É minha alma que está lá)

There's a flag-pole rag and the wind won't stop
Há uma bandeira rasgada e o vento não vai parar
(That's my soul up there)
(É minha alma que está lá)

There's a fossil that's trapped in a high cliff wall
Há um fóssil preso na parede de um penhasco elevado
(That's my soul up there)
(É minha alma que está lá)

There's a dead salmon frozen in a waterfall
Há um salmão morto, congelado em uma queda d'água
(That's my soul up there)
(É minha alma que está lá)

There's a blue whale beached by a springtime's ebb
Há uma baleia azul encalhada na maré de primavera
(That's my soul up there)
(É Minha alma que está lá)

There's a butterfly trapped in a spider's web
Há uma borboleta presa na teia de uma aranha
(That's my soul up there)
(É minha alma que está lá)

There's a king on a throne with his eyes torn out
Há um rei em seu trono com os olhos arrancados

There's a blind man looking for a shadow of doubt
Há um homem cego procurando por uma sombra de dúvida

There's a rich man sleeping on a golden bed
Há um homem rico dormindo em uma cama de ouro

There's a skeleton choking on a crust of bread
Há um esqueleto engasgado com uma casca de pão (minha imagem preferida)

There's a red fox torn by a huntsman's pack
Há uma raposa vermelha que foi dilacerada por uma armadilha de caçador
(That's my soul up there)
(É minha alma que está lá)

There's a black-winged gull with a broken back
Há uma gaivota de asas pretas com a coluna quebrada
(That's my soul up there)
(É minha alma que está lá)


Trago a capa do álbum Synchronicity(1983)