domingo, 30 de maio de 2010

1§ - Sobre a erudição e os eruditos

Quando observamos a quantidade e a variedade dos estabelecimentos de ensino e de aprendizado, assim como o grande número de alunos e professores, é possível acreditar que a espécie humana dá muita importância à instrução e à verdade. Entretanto, nesse caso, as aparências também enganam. Os professores ensinam para ganhar dinheiro e não se esforçam pela sabedoria, mas pelo crédito que ganham dando a impressão de possuí-la. E os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para poder ganhar ares de importantes. A cada trinta anos, desponta no mundo uma nova geração, pessoas que não sabem nada e agora devoram os resultados do saber humano acumulado durante milênios, de modo sumário e apressado, depois querem ser mais espertas do que todo o passado. É com esse objetivo que tal geração frequenta a universidade e se aferra aos livros, sempre os mais recentes, os de sua época e próprios para a sua idade. Só o que é breve e novo! Assim como é a nova geração, que logo passa a emitir seus juízos. - Quanto aos estudos feitos simplesmente para ganhar o pão de cada dia, nem os levei em conta.

Arthur Schopenhauer. A arte de escrever. Trad. Pedro Süssekind.
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sexta-feira, 14 de maio de 2010

O homem não cede a outrem a glória que conquistou


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De todas as quimeras do mundo, a mais admitida e universalmente espalhada é a do cuidado com nossa reputação e nossa glória, que apreciamos a ponto de, em troca de tão vã imagem, de uma simples voz sem corpo, renunciarmos às riquezas, ao repouso, à saúde, à vida, bens efetivos e circunstanciais. "A fama, que com a doçura de sua voz nos encanta, arrogantes mortais, e vos parece tão bela, não passa de um eco, um sonho ou, antes, e sombra de um sonho que se dissipa e se esvai com o vento" (Tasso). De todas as ideias despropositadas que podem passar pela mente dos homens é ela a mais indomável e tenaz, "porque não cessa de tentar os espíritos mais avançados na virtude" (Santo Agostinho). Parece com efeito, que dela mais do que de quaisquer outras se libertam com maior dificuldade os filósofos.


Não há nenhuma cuja futilidade seja mais claramente demonstrada pela razão, mas ela tem raízes tão vivas dentro de nós que não não sei se jamais alguém conseguiu livrar-se inteiramente dela. Depois de tudo dito a fim de evitar, quando pensamos ter conseguido, provoca ela em nós uma tal reação contra os argumentos emitidos que estes não mais se sustentam. Pois, como afirma Cícero, exatamente os que mais a combatem querem que seus nomes figurem nos livros que escreveram a respeito e que o seu desprezo pela glória os glorifique.

Michel de Montaigne. Ensaios. Série Os pensadores

terça-feira, 4 de maio de 2010

                                                                                                  Foto: Danilo Cerqueira


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QUEM SOU EU?
SERÁ UMA LÂMPADA A APAGAR
O LAPSO DE MINHA MEMÓRIA
UM RUÍDO DE MAGIA TOSCA
NA ÍNFIMA E SUSPENSIVA CHAMA DE VIDA
VAZIA.

A CAÇADA PERDIDA,
CONGREGAÇÃO TODA FEITA DE INSÔNIA,
COVARDIA E TANTOS CÍRIOS DERRETIDOS.
MEDO CONTÍNUO DE TANTO DESABAFO LÍRICO
- MAS É O CÍRIO
- MAS NÃO É O ALÍVIO.

CORDAS TREMEM
SONS AFINADOS
ENFIADOS, FINADOS
DECRÉPITO A TARTAMUDEAR IDÍLIO
À CANTINA QUE LHE SERVE SEU BAÇO.

ANDA CACHORRO!
TUA VIDA QUERIDA VIDA
PERDEU O DESPREZO QUE EM TI TE AMAVA
LUZIU A CORTIÇA DE VIDA
E O SUMO DE UMA VIDA PERDIDA
É AINDA A TUA CARGA.

18/08/2006